Edgar estava sentado em seus aposentos em uma noite fria e calejante. O fogo crepitante de sua nova moradia tentava, quase miseravelmente, aquecer o corpo morto de Edgar. Ele não tinha tido tempo de se alimentar de um jeito adequado, embora a guerra e as disputas por territórios estivessem em alta naquela época.
Uma senhora, provavelmente uma bruxa, estava à sua frente, humilhando-se por misericórdia por sua neta, que estava à beira da morte. A velha queria a ajuda do sangue de Edgar. Caso a morte chegasse perto demais de sua família, talvez a menina pudesse enganá-la.
Ele não sabia de onde ela ouvira aquela besteira, mas tinha certeza de que alguém — alguma criatura maliciosa — poderia ter dito aquilo para se aproveitar dela. Se a morte quisesse levá-la, ela a levaria. O sangue de Edgar apenas deixaria a alma da garota presa naquela vida miserável. Se ela queria dar vida eterna à neta... bem, isso não era permitido. Não para crianças. E, mesmo se o caso fosse diferente, haveria um ritual. Claro que Edgar não queria transformar alguém.
— Quem lhe disse essas coisas? — perguntou, franzindo o cenho.
O hálito gélido, com cheiro de cobre, alcançou o rosto da senhora.
— Alguns conhecidos. Eles não são humanos. — respondeu ela, esperançosa.
Edgar pareceu intrigado com as amizades da mulher. Embora ela parecesse pobre demais e desprovida de qualquer bem-estar, tinha segurança suficiente para acreditar que Edgar não a mataria ali mesmo e jogaria seu corpo fora depois.
— Gostaria de saber como essas coisas chegaram à conclusão de que meu sangue ajudaria... Quer transformar sua neta em alguma coisa diferente do que ela é?
A velha, parecendo abismada com o que ele disse, balançou a cabeça negativamente.
— Só quero salvá-la. Só preciso de um pouco para enganar a morte.. então preciso de sangue de uma criatura que esteja bem... Morta . Ele precisa pensar que ela já é dele. Então irá embora.
Edgar se ajeitou na cadeira, apoiando as mãos nos braços do enorme assento. Encarou seus homens e ordenou, com um simples aceno, que saíssem da sala. Riu sem humor, embora achasse intrigante o jeito da mulher pensar.
— Seu nome? — perguntou, querendo descobrir depois se ela era conhecida por algumas criaturas daquela aldeia humilde e fodida.
Ela estava visivelmente desconfortável e com frio, mas não abaixou a guarda nenhuma vez.
— Elizabeth — respondeu educadamente.
Ela cruzou os braços para controlar o tremor do corpo, fosse por frio ou medo. Aproximou-se da lareira para tentar resolver pelo menos um de seus muitos problemas.
— Tudo bem — Edgar disse de repente, com um humor estranho. — Faz tempo que não faço algo... diferente.
Ele se levantou e foi até uma pequena mesa perto da lareira. Pegou uma taça de metal e cortou a própria mão, despejando nela o líquido rubro. Sua essência maligna.
Os olhos da mulher brilharam com a esperança de salvar a neta usando a poção que aprendera com aquela outra coisa que ainda não conseguia nomear — uma criatura com chifres, da altura de uma árvore, que não gostava de perder nos jogos de cartas durante as luas cheias.
Ela pegou a taça e agradeceu. Edgar voltou a se sentar e limpou os vestígios da bagunça com um lenço de linho.
— Diga-me o nome da criança primeiro. — ordenou.
Ela engoliu em seco antes de responder:
— Amalia.
A velha saiu e o deixou sozinho novamente em sua morada sombria e fria.
Ele não sabia por que fizera aquilo. Talvez fosse o tédio da rotina. Talvez porque os anos passassem e as pessoas nunca mudassem.
Sentia-se cansado e vazio. Não havia nada de diferente dentro dele. Tinha vivido séculos, comido, aprendido coisas e fodido tantas vezes que nada mais parecia capaz de surpreendê-lo. Então ele simplesmente fez.
Provavelmente foi por causa da audácia da mulher, que ele obviamente achou diferente e divertida. Fazia muito tempo que alguém não o surpreendia daquele jeito, agindo como se tivesse uma carta na manga. Ele andaria pela madrugada tentando descobrir algo sobre a velha bruxa.
Edgar se arrumou e saiu noite adentro para assombrar algum pobre diabo desavisado. Mas, por algum motivo... soube exatamente o segundo em que a velha fez sua magia. Aquilo o atingiu como uma onda avassaladora da qual ele não conseguiu escapar.
***
Edgar estava sentado no meio do nada, em uma floresta que cheirava a animais mortos , com uma criatura abominável o encarando com um semblante estranho. Ele se sentia como se alguém tivesse chutado suas bolas e agora estava miserável.
— Você não me parece bem — a criatura zombou dele.
— Também não me sinto bem — Edgar afirmou. — Mas me diga, você conhece a bruxa Elizabeth?
Edgar se endireitou e ficou de pé. Agora havia lama em sua calça e em suas botas.
A criatura se curvou para observá-lo melhor. Talvez estivesse decidindo se diria alguma coisa ou não.
Edgar acabou nas mãos da criatura em um jogo de apostas, o que era estranho para um protetor da floresta ter esse tipo de vício. O irritante era que Edgar já havia perdido três vezes. Claro que ele sabia que, logicamente, a criatura queria vencer. Ele só precisava que o maldito abrisse a boca, mas também Edgar odiava perder mesmo que fosse proposital
— Eu sempre perco para Elizabeth... — o protetor riu, quase babando de felicidade, enquanto seus chifres se enroscavam nos galhos das árvores.
Edgar embaralhou novamente as cartas.
— Fale-me dela. Ela tem algum desejo de poder? De destruir coisas?
A criatura libertou os chifres dos galhos e retirou algumas folhas da cabeleira.
— Ah, então ela conseguiu o sangue. Que bom.
Edgar distribuiu as cartas sobre a mesa improvisada.
— A filha dela se casou de novo, e o homem está de olho na neta. Parece que a filha de Elizabeth quis tirar a própria filha de circulação. Agora Amália mora com Elizabeth. O veneno demorou a sair do organismo, mas mesmo depois disso, ela não acordou. Foi para isso que Elizabeth quis o seu sangue. Caso a morte estivesse batendo em sua morada, ela acabaria se afastando por causa do feitiço.
Eles continuaram aquela jogatina por um tempo que pareceu interminável.
— Muito vil da parte de uma mãe tentar matar a própria criança — Edgar comentou, tentando descobrir mais alguma coisa.
A criatura observou as próprias cartas, já imaginando vencer novamente. Dessa vez, porém, Edgar decidiu jogar diferente. Se a criatura continuasse ganhando, a conversa terminaria rápido demais.
O chifrudo acabou ficando furioso quando perdeu e derrubou a mesa improvisada. As cartas caíram na lama.
Arrependido, começou a recolhê-las do chão.
— Eu tenho um problema com derrotas. — A criatura gargalhou. — Estranho. Elizabeth sempre me faz perder, então eu deveria estar acostumado. Eu devia ter jogado com aquele alfa da parte oeste da floresta. Soube que ela aprendeu a jogar com ele.
Edgar pareceu genuinamente surpreso.
Ele próprio nunca havia visto lobisomens. Mas, pensando bem, também nunca chegaria a reparar neles. Edgar fazia o que queria e ia embora. Se alguma criatura estava matando ou cometendo atrocidades, ele simplesmente virava as costas e seguia com a própria vida.
— Ela é mais surpreendente do que pensei — admitiu.
A criatura sentou-se novamente e recolocou o pedaço de madeira sobre o tronco para improvisar a mesa outra vez.
— Sim. Amália parece a avó quando era jovem. Muito bonita.
Por um breve momento, Edgar arregalou os olhos, pensando seriamente se o monstro estava demonstrando interesse demais por uma criança para o gosto dele. Mas ao longo dos séculos, ele já tinha visto coisas muito piores. Muito piores.
— Ah, é? Quantos anos tem a mocinha?
As cartas estavam novamente sobre a mesa. Os dois se encararam, tentando encontrar qualquer sinal de blefe no olhar do adversário.
— Ela tem vinte anos.
Edgar ficou emputecido. A velha havia lhe dito que era uma criança, provavelmente para despertar sua simpatia.
— Velha maldita. Ela me disse que era uma criança.
Edgar jogou suas cartas sobre a mesa. A criatura olhou as próprias cartas e desistiu da rodada.
— Para ela, Amália continua sendo sua criança. Você nunca teve filhos?
Edgar coçou a cabeça.
Até onde sabia, não tinha filhos.
Uma dor repentina atravessou sua cabeça. Sua mão pressionou a têmpora levemente.
— Onde ela mora? Preciso ver essa Amália.
O protetor coçou a cabeça, desconfortável querendo evitar de dizer a verdade.
Começou a guardar suas coisas e se levantou, pronto para abandonar Edgar sozinho no relento e na lama.
— Hmmm... isso não vai acontecer. Mesmo que eu quisesse.—A criatura deu as costas para Edgar.— Ela deve ter lançado algum feitiço de proteção. E você é um impuro. Só encontrará Amália quando o feitiço for quebrado ou quando Elizabeth morrer.
Edgar estava prestes a confrontá-lo, mas a criatura desapareceu diante de seus olhos.
Agora ele estava frio, sujo e irritado.
O sol não demoraria a nascer, e ele ainda não havia se alimentado adequadamente. Frustrado, seguiu para casa. No caminho, encontrou uma meretriz em um beco escuro oferecendo seus serviços. Alimentou-se de seu sangue e a abandonou na rua seguinte, atrás de uma carroça.
Quando finalmente chegou à sua morada, deitou-se na cama envolto pela escuridão.
O calor que a alimentação lhe proporcionara começou a desaparecer. Sua pele tornou-se mais pálida. As veias ficaram mais evidentes.
Quando mergulhou no sono, parecia exatamente aquilo que era.
Um cadáver.


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