Vários meses depois...
A guerra se instalou nas aldeias próximas. Várias delas foram saqueadas, as mulheres abusadas, os maridos mortos.
Amália tentou fazer sua parte cuidando de algumas pessoas feridas. Parece que o governante daquelas terras havia colocado impostos altos sobre a produção dos agricultores. Quando eles não conseguiram entregar a quantidade que ele queria... bem, ele mandou seus soldados.
Muitos homens lutaram; poucos sobreviveram. Os mais velhos morreram e o governante ainda disse que pouparia os mais jovens por causa da mão de obra, pois ainda queria seus ganhos. Fossem moedas ou produtos. Mas os que foram poupados estavam feridos.
Amália estava exausta e havia ganhado poucas coisas. Havia poucas semanas que sua avó falecera e ela estava arrasada. Sua mãe e seu padrasto ficavam atrás dela o tempo todo, dizendo que haviam arrumado um marido para Amália. Mesmo ela dizendo que não queria e tentando fugir deles.
Sua mãe havia vendido a casa da avó e deixado Amália sem teto.
Agora, morando com a mãe novamente, Amália sentia que a morte seria mais convidativa.
Ela dormia no celeiro. Alguns ladrões roubaram o gado de seu padrasto e agora eles estavam pobres. Ele pensava obsessivamente entre vender Amália ou fazer mal a ela. O problema era que, se a machucasse, ela valeria menos — e quanto mais moedas, melhor para ele e para a víbora de sua progenitora.
A noite estava chegando e ela caminhava pelo campo em meio a alguns corpos.
Não era honroso roubar dos mortos, mas alguém faria eventualmente e ela queria fugir daquela família.
Ela tocava o pescoço de alguns corpos tentando ver se alguém ainda estava vivo quando levou um grande susto: uma mão pálida e áspera agarrou a dela. Gritou alto através da escuridão levemente atenuada pela tocha.
O homem tinha uma barba espessa e grossa, de tom castanho-escuro. Os cabelos estavam um pouco selvagens e seu rosto era maduro — não o bastante para ser considerado velho.
Parecia bem cuidado, embora estivesse sujo e tivesse tossido uma bola de sangue. O corpo tinha algumas feridas abertas, mas fora elas não havia outras marcas. Aparentemente doenças estavam ausentes naquele corpo pálido e suas mãos não eram nodosas.
O que mostrava que ele não trabalhava no pesado.
Ela retirou a blusa de linho rasgada dele para ver as feridas melhor.
Os olhos...
Grandes e verdes. Expressivos demais para passarem despercebidos.
Um homem... muito bonito, com um rosto severo. Como se até estivesse julgando-a.
— Parecem feridas superficiais. Vou te ajudar a sair daqui.— Ela disse, fazendo força para que ele apoiasse o corpo nela.
Eles entraram em uma caverna um pouco afastada. Havia uma cachoeira por perto; ela poderia fazer uma fogueira e limpar os ferimentos dele.
O ajudou a se deitar e colocou a tocha perto para que ele não sentisse frio. Conseguiu fazer uma fogueira e trouxe algo humilde para ele se alimentar.
Evitou olhar demais para ele, pois tinha medo de não conseguir desviar o olhar caso o fizesse.
Os olhos...
Eram uma coisa hipnotizante.
— Vou pedir ajuda para alguns homens. Assim você pode ficar em um lugar mais confortável e menos perigoso.— Ela se levantou, mas o homem agarrou seu braço.
A voz macia e grossa como veludo envolveu seus ouvidos.
— Não precisa. Por favor.—Ele disse educadamente. — Fui atacado por ladrões recentemente. Eles acharam que haviam se livrado de mim, mas sobrevivi. Se souberem que estou vivo e que posso reconhecê-los... vão tentar terminar o que começaram. Vou recompensar você.
Ela sentiu o receio tomar conta dela e a voz que mandava correr estava insistente, embora parecia que a voz daquele homem tinha poder para calar seus instintos.
— Por favor.—A voz cantou novamente.
— Tudo bem... como é seu nome?—Perguntou, olhando para o ombro direito dele, onde havia uma ferida enorme com um buraco circular.
Uma faca ou espada não faria aquilo.
Talvez uma arma nova...Talvez uma lança. Grossa demais para ter sido uma flecha.
— Meu nome é Edgar... Edgar Arellano.
— Amália. Sem sobrenome.— Ela se agachou perto dele para limpar ao redor das feridas.
Edgar bebia algo quente que ela havia preparado para aquecê-lo por dentro. Ele parecia muito frio e dava para perceber seus olhos sobre ela o tempo todo.
— Por que sem sobrenome?— O hálito quente dele passou suavemente por seu pescoço, fazendo os pelos de seu corpo arrepiarem.
— É o que acontece quando seu pai engravida sua mãe e foge, e sua avó é órfã. Você acaba sem sobrenome masculino.
Edgar usou o corpo dela como apoio, mas ela teve que ficar desconfortavelmente perto demais dele.
— Amália já é bonito o suficiente.
Ela sentiu as bochechas queimarem em meio à quase escuridão, rezando para que ele não percebesse na pouca luz.
— Por que não me olhas, Amália?
Ela o olhou diretamente nos olhos, tentando parecer neutra na presença dele.
Mas seu coração parecia ter corrido uma maratona e o ar faltava em seus pulmões.
— Eu só... estou cuidando de você. Se suas feridas forem profundas demais... vai precisar de um médico melhor do que uma mera curandeira. Sei fazer chás e tônicos, mas não sei... fazer o buraco da sua pele desaparecer.
Edgar sentia o desconforto dela.
O coração bombear.
Seu monstro interior louco pela caçada.
Mas ele tinha algo mais importante para fazer.
O silêncio e o vazio da caverna ao redor dos dois faziam a voz de Edgar ecoar, parecer mais poderosa e hipnótica.
— Shhh. Preste atenção somente em mim. Olhe no fundo dos meus olhos, Amália.— A voz sussurrou de todos os lados.
Como se estivesse dentro da cabeça dela. Entoando feitiços dos quais ela não podia escapar.
Edgar a beijou.
Os lábios e a língua aquecidos pela bebida envolveram os dela.
Ela tentou lutar contra aquele sentimento — a sensação de que o corpo dele fosse um ímã atraindo o dela.
Porém quando tentou se manter sã, Edgar a puxou para seu colo e envolveu sua cintura com um dos braços enquanto o outro segurava sua nuca.
Ela sentia o próprio corpo esquentar enquanto tomava consciência do quanto o corpo de Edgar estava frio.
Com um movimento fluido ele trocou suas posições para ficar sobre ela. O feitiço foi quebrado quando seus lábios desceram para seu pescoço fazendo ela arfar e as presas invadiram sua pele e sugaram seu sangue.
Ela sentiu a visão turva.
Ouviu Edgar dizer alguma coisa que não conseguiu compreender, tudo ali parecia preenchido pela presença dele.
Ele era um demônio.
E ela tinha caído em uma armadilha.
Tão facilmente...
Como se tivesse esquecido tudo que sua avó havia ensinado.
Ela viu suas feridas cicatrizarem. Encarou sua pele o máximo que pôde. Chegou até a tocar as feridas de Edgar para ter certeza de que não estava tendo alguma alucinação.
Não dava para saber quanto tempo passou, quando estava quase amanhecendo, Edgar adormeceu ao lado dela.
Ela não sabia se chegou a dormir ou se ficou em choque olhando para o nada durante horas. Ali, ao seu lado, estava um homem seminu que ela havia tratado.
Sem feridas.
Sem marcas.
Frio.
Desprovido de cor com os lábios quase azuis e as veias nítidas. As pernas dele entrelaçadas nas coxas dela como se fossem amantes.
Ela não sabia que situação demoníaca havia vivido. Apenas se levantou e olhou para Edgar enquanto saía da caverna com o pescoço marcado pelas presas dele.
Completamente em choque e exausta, Amália foi para casa, subiu as escadas do celeiro e deitou sobre a palha, jogando um cobertor grosso de pele sobre si.
Por mais que tentasse se aquecer, era como se o abraço gélido de seu algoz ainda estivesse sobre ela.

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