Lembranças

 Edgar sentiu algo errado no dia seguinte em que Elizabeth havia feito o feitiço. Ele sentia um mal estar, uma angústia e um certo desespero. Quando ele sentiu vontade de chorar como uma criança, até que ele percebeu que os sentimentos não eram dele e sim de Amália. 
      Levou meses para ele aprender a bloquear aquilo. Aquela montanha de sentimentos, mas as vezes ele deixava passar para sentir algo diferente da indiferença constante na vida dele. 

      Até agora o sentimento que mais o deixava louco de várias formas era medo e a luxúria. Como uma mulher de 20, jovem e formosa sente as dúzias . O tempo foi passando e Edgar ficava andando a noite na vila. Vendo os bêbados jogando , falando besteiras. Pessoas tentando ganhar alguma coisa com mentiras. Homens traindo suas esposas com damas da noite. Então em uma de suas noites Edgar avistou um ferreiro pintando um retrato de uma mulher de pele branca e cabelos grossos escuros , assim como os olhos dela. Muito bonita. Ele ficou surpreso com a delicadeza do ferreiro ao dar suas pinceladas. Quem o olhava só pensaria no homem grande e bruto com mãos calejadas , mas olhando de perto… dava para perceber que o homem deveria ter a mesma idade quando Edgar se transformou em uma criatura . 


     Ele se aproximou do homem e sussurrou algumas palavras na mente dele. Palavras que só ele poderia ouvir, usando seu poder para dominar a mente frágil e distraída do desconhecido .


Quem é a moça? — Ele perguntou curioso, mesmo que algo na cabeça dele já estivesse dando dicas. 

      O homem bruto não buscou saber de onde vinha a voz. Estava distraído demais para querer prestar atenção em qualquer outra coisa .

— Amália. — Foi a resposta. 

      Edgar estreitou os olhos e olhou a pintura novamente. Feliz que agora ele tinha uma dica de como Amália se parecia.

Ochen' krasivaya— Ele diz mentalmente. Bonita. Muito. Isso para alguém como ele já é muito coisa . 

       Ele foi embora se desvanecendo em uma nevoa mais escura que a própria noite, Já que não poderia fazer mais nada . Não tinha como rastrear Amália , ele não tinha o cheiro dela. Também não conseguiu ir atrás de Elizabeth. Então aquela criatura da floresta estava dizendo a verdade, Elizabeth tinha conseguido o que quis de Edgar e escondeu a família dos olhos de uma criatura maligna . Assim foi durante meses .

Edgar obteve migalhas  de informações , que era o mesmo que nada. A imortalidade tinha conseguido se tornar um inferno lento para ele. Onde pela primeira vez em séculos, ele não pode conseguir o que quer, na hora que quer. Até que no meio da noite nesses meses infernais, quando ele se alimentava veio … aquilo. Os dentes dele estavam presos em alguma vítima aleatória que ele conseguiu. Não prestou atenção se era homem ou mulher.  Ele estava olhando para o nada como se alguém tivesse jogado seus pulmões para alguma outra dimensão. Aquilo doía no peito dele e tirava-lhe o ar. Sentiu desespero pela primeira vez em muito tempo e sentiu algo que parecia … uma vontade de morrer . Algo que nunca passou pela cabeça dele, nem mesmo quando ele era um pobre humano . Então ele ergueu a muralha mental sobre ele novamente sabendo que aquilo não era dele . Amália. Ele pensou. 

    O que teria a deixado tão aflita o bastante para sentir aquele turbilhão de emoções ? Tão forte que Edgar ficou pensativo se tinha deixado sua guarda baixa ou se realmente foi tão intenso para passar pelas barreiras dele. 

      Dois dias se passaram e Edgar realmente descobriu o que foi. Quando enterraram o corpo de Elizabeth ao pôr do sol. Parece que era uma tradição esperar essa quantidade de tempo para não ter risco de enterrar a pessoa viva. Interessante. Já que no tempo de Edgar, ele acordou em meio a camadas e mais camadas de terra. Havia sido bem intenso aquele dia para Edgar. Do enterro dele, claro. Não tinha passado por sua mente que ele pareceria tão morto que o enterrariam como indigente quando se transformasse. Em sua cabeça ele só se transformaria, passaria um pouco mal ou teria algum desconforto, mas não foi assim. Como ele tinha feito o restante do ritual na madrugada, quando amanheceu, ele já estava transformado e havia dormido. Foi naquele dia que ele descobriu que parecia morto quando dormia e depois de algum tempo percebeu que isso acontecia quando não se alimentava. A aparência dele mudava.  Levou três dias de fome para parecer monstruoso. Ele até riu de lembrar desse teste. Monstruoso de fome. 

     Edgar olhou de longe Elizabeth passando pelos rituais de morte enquanto um padre dizia algumas coisas que foram escritas por outra pessoa ou tirado de seu manuscrito bíblico. 

      Amália podia ser finalmente vista, assim como o restante da família. Que eram incrivelmente 4 pessoas. A neta estava arrasada, pronta para morrer junto. O coração dela batia de um jeito irregular e ele podia sentir o gosto salgado de suas lágrimas no meio de sua língua. Edgar controlou seu corpo para não ficar recebendo emoções demais dela. A mãe de Amália parecia até leve. Não tinha chorado nenhuma vez, mas ficava dizendo que agora faria tudo por sua filha mais velha, já que agora ela não tinha mais a avó. O padrasto estava na mesma. A irmã mais nova praticamente um bebê, não sabia o que estava acontecendo . 

      Edgar ficou de olho durante semanas. Sabia tudo que acontecia. Hipnotizava pessoas para descobrir mais ainda. O novo passatempo dele. Saber o que o espelho dele sentia e vivia. Sabendo que ela estava passando por algo que ele passou . Não exatamente a mesma situação, mas o desespero sim. Ela estava sem lar e sem família que a amasse dando o seu melhor para continuar, tentando esconder que estava miserável por dentro. Os “ pais” tornando a vida que já era ruim em um completo inferno . 

Ahh mas Edgar sabia o que era aquilo.  Ele sentiu isso a muitos séculos atrás . Lembrava como se fosse ontem.

*****

Séculos atrás enquanto humano Edgar, o filho do meio com dois irmãos mais velhos, e duas irmãs mais novas. O pai endividado até a boca , eles morando nas terras que eram da mãe dele, plantando e tentando sobreviver . A mãe dele já morta por alguma doença que ninguém descobrirá o que era na época. Filha de nobres que quando engravidou de um qualquer, havia sido despachada de sua casa familiar e colocada em uma terra doada pelos pais para que ficassem longe deles. Eles cresceram cuidados por um pai nada amoroso . Os irmãos mais velhos gostavam de jogatinas e não eram espertos para negócios. Não sabiam cuidar do plantio e Edgar não conseguia fazer tudo sozinho. Facilmente ele se livraria deles e cuidaria das irmãs, mas não foi o que aconteceu. Houve uma época fria fora de temporada que estragou suas produções. Sem nenhuma moeda guardada, o pai tentou fazer acordos, mas só ganharam humilhações e fome. Suas duas irmãs morreram famintas e doentes. Seus irmãos mais velhos, mortos em brigas. Ele e o pai não se davam bem. O pai vendeu Edgar como escravo para uma nobre por algumas moedas. 

     Sem aviso prévio, Edgar foi levado direto às masmorras de uma mulher tenebrosa. Magra demais para uma nobre bem abastada, cabelos pálidos demais e olhos grandes e escuros. Ele não se lembra do rosto em si, ele só se lembrava de breves detalhes. O cheiro dela era insuportável e as unhas estavam sujas. Ele também não conseguia lembrar da voz, somente das palavras dela. 

  “ Por que ele está tão abatido? Por que alimentaram ele? Por que ele não está disposto a servir sua mestra?” Por que, porquê , por quê? Edgar pensou. Talvez fosse a fome, ou uma surra que ele levou . Talvez estivesse com uma infeção em suas partes que logicamente ela poderia ter passado pra ele. Poderia também ser uma época de friagem…ou talvez ele estivesse com febre demais daquele tempo. Não tinha como saber. O lugar estava desprovido de janelas, não dava para saber se era dia, noite ou sequer quanto tempo ele ficou naquele lugar. Com um estalo surpreendente ele lembra do nome da nobre. Lady Aurora. Um nome bonito para uma coisa monstruosa. Pensou sorrindo. Ela gostava de deixar Edgar acorrentado e nu por dias na própria urina e fezes. Quando queria usar o corpo dele, jogavam água fria e o banhavam. Suas mãos pequenas e ossudas esticaram o membro de Edgar na esperança de que algo dentro de seu membro fosse despertar para seu agrado. Ela odiava quando Edgar estava indisposto para ser usado e acabava o machucando mais. Morrer nunca passou pela cabeça dele. Vingança por outro lado … enchia a boca dele de água. 

     Em uma daquelas noites torturantes que Edgar conheceu um escravo indígena. Eles tinham deuses, entidades diferentes, rituais e muitas outras coisas. Foi aí que Edgar teve certeza que ele adoraria se tornar outra coisa. Algo monstruoso que pudesse vingá-lo . Ele ouviu as histórias do homem com atenção.

Levou 10 anos para ele se tornar a criatura que ele batalhou para ser. Por que ele não tinha quem fizesse o ritual por ele, alguém que tivesse o poder para dividir. Então ele lutou, fez coisas medonhas e se transformou sozinho . Nunca, nada com animais. Claro. Ele gostava de lembrar dessa parte. Todas as atrocidades feitas, poupando sempre animais. Eles nunca fizeram nada contra ele e Edgar gostava de devolver as coisas na mesma intensidade que era lhe dado.

     Foi delicioso quando ele voltou para Aurora. Cada parte do corpo dele estava muito disposto para ela. A morte foi lenta e teatral . Uma vez por ano Edgar volta para o pequeno palácio dela . Para ver o espírito dela se enforcar desesperadamente para fugir dele. Dia após dia. Edgar achou chato por um tempo ter que ver espíritos, mas quando viu que ele podia reviver a morte de seus inimigos… ficou mais divertido. Quando descobriu essa parte, passou dias vendo Aurora fazer aquilo, uma, duas vezes , uma dúzia de vezes . Então ele foi até o próprio pai.

       Edgar pensava nas coisas que aconteciam a sua volta. Ela estava só no começo da dela .

Amália não passaria por isso . Ela tinha uma coisa monstruosa para dividir poder. Talvez a vingança dela não fosse tão doce como a de Edgar , mas vingança … sempre é satisfatória . 

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